Apresentação
Este texto destina-se principalmente às pessoas que estão a ser
tratadas com LÍTIO, aos que possam vir a necessitar desse tratamento,
aos seus familiares e amigos. Mas, certamente, a informação científica
que contém será muito útil para os médicos e outros técnicos de saúde,
na área da psiquiatria e da medicina em geral.
Um medicamento comprovadamente eficaz na prevenção de uma doença psíquica recorrente, caracterizada pela repetição de crises depressivas com grande sofrimento e risco, e de crises eufóricas,
que podem ser seriamente comprometedoras para as pessoas atingidas, é
uma arma terapêutica de primeira linha, quando bem utilizada. Ora, está
provado que, de um modo geral, a educação do paciente e dos familiares
é uma condição essencial para uma boa prática médica, garantindo uma
consciente adesão ao tratamento e os necessários cuidados a ter.
O rótulo de “doença mental”, como algo estranho, essencialmente
negativo e diferente das outras doenças, ainda pesa, e de que maneira,
na opinião de muita gente, mesmo dos instruídos em outras matérias.
Desmistificar preconceitos enraizados, exige uma psiquiatria exercida
com maior eficácia, impossível sem uma consciência esclarecida dos
cidadãos doentes, dos familiares e amigos e de todos os que se
interessam pelo ser humano em crise, num espírito de salutar optimismo
científico humanista.
O que é o lítio? Como é que é usado no tratamento da doença Bipolar?
Como se inicia e prossegue a terapêutica? Quais os efeitos colaterais
que podem ocorrer e como resolvê-los? O leitor encontrará as respostas
neste texto, cuja função é educar para a saúde numa perspectiva médica
global.
O que é o Lítio
O lítio é um elemento simples que se encontra na natureza.
Visto existir, no seu estado normal, em pequenas quantidades na
comida e na água, o lítio encontra-se no corpo humano. Estes vestígios,
contudo, não têm expressão. Algumas rochas têm um alto teor de lítio e
são estas as fontes de quase todo o lítio utilizado na indústria e na
medicina.
Não obstante as propriedades do lítio serem conhecidas há mais de uma
centena de anos, a sua utilização na medicina moderna apenas começou
em 1949. Quando utilizado como medicamento, o lítio é tomado por via
oral em forma de comprimidos ou cápsulas e, por vezes, em xarope. É
comercializado quer na sua forma «standard», quer como preparado de
«libertação controlada». Em ambos os casos necessita de receita médica.
Em PORTUGAL, os comprimidos de PRIADEL (nome comercial), contêm 400
miligramas de lítio sobre a forma de carbonato, havendo, no entanto,
preparados com 300 miligramas, em cápsulas hospitalares.
Para que o Lítio é Utilizado
O lítio é eficaz no controle de algumas doenças
mentais e estados emocionais caracterizados por grandes e frequentes
alterações de humor, muito incapacitantes. Tais perturbações são
conhecidas em linguagem médica como Doença Bipolar, Doença Bipolar ou Perturbação do Humor Bipolar. A maioria das pessoas afectadas pela perturbação Bipolar sofrem de episódios recorrentes quer de Mania, quer de Depressão.
Em alguns casos, pode acontecer apenas
uma crise ou algumas e nunca mais se repetirem. As pessoas que sofrem
apenas de crises periódicas de mania (sem depressão), são consideradas também como Bipolares.
Aqueles que experimentam apenas crises
episódicas de depressão, têm contudo, uma doença designada por
Depressão Major ou Perturbação Unipolar, a qual se distingue da
perturbação Bipolar.
A Mania caracteriza-se pela
mudança de humor do estado normal para um estado extremo de
hiperAtividade e frequentemente acompanhado de sentimentos de elevação,
grandeza e euforia—um estado descrito como estar-se no «topo do
mundo». Durante um episódio maníaco pode-se dormir muito pouco, falar
muito, rápida e continuadamente, gastar pouco tempo com as refeições,
mostrar marcada irascibilidade e impaciência e terem-se pensamentos
rápidos, precipitados.
Muitas vezes o estado maníaco evolui até
ao ponto em que o bom senso diminui e o contacto com a realidade se
perde.
Pode tornar-se difícil compreender o que
uma pessoa está a dizer. Por vezes, decisões tomadas precipitadamente
resultam de impulsos, e levam a esbanjamentos financeiros, excessos
sociais ou profissionais, com consequências legais que podem envolver
não só o próprio mas a sua família e, porventura, os outros. A
hospitalização pode ser necessária nestes casos.
A depressão é um estado
em que o humor muda até ao ponto de se ficar muito em baixo,
acabrunhado, sem ânimo, desesperado. Verificam-se alterações no sono,
falta de apetite, perda de interesse sexual, falta de energias, excesso
de preocupações, perda de interesse pelas coisas, impossibilidade em
conseguir prazer e dificuldades respeitantes à concentração e à
memória. O cumprimento de tarefas diárias, tais como ir para o trabalho,
tornam-se difíceis ou impossíveis. Pessoas em estado de depressão,
muitas vezes pensam no suicídio e, por vezes, suicidam-se. A
hospitalização poderá ser necessária.
Tendo em consideração o que acima se diz, deve-se entender bem claramente, que a mania e a depressão são transtornos clínicos graves
e não se devem confundir com as normais variações do humor, tais como
estar-se com «boa ou má disposição», situações que a todos ocorrem
normalmente, de tempos a tempos.
Não obstante ser o lítio utilizado
principalmente no tratamento de doença Bipolar, os investigadores
continuam a estudar novas utilizações para o medicamento. Mostra-se uma
promessa para o tratamento de uma diversidade de doenças, incluindo
situações de depressão não associadas com a doença Bipolar.